Cuba e Coreia do Norte: aliados históricos a favor da soberania popular

Dois países que, apesar de separados por um imenso oceano, nutrem uma histórica aproximação envolvidos pelo amor à autonomia de seus povos.

Por Adriano Lima — Centro de Estudos da Política Songun Brasil

Líder cubano Miguel Díaz-Canel desfila ao lado do líder coreano Kim Jong Un, durante visita a Pyongyang em 2018, simbolizando um laço antigo de amor e solidariedade entre os dois países.

Em um momento que Cuba atravessa mais uma difícil luta contra mercenários contrarrevolucionários financiados pelo departamento estadunidense, talvez seja interessante tecer uma breve dissertação acerca da amizade entre as nações cubana e norte-coreana.

A fraterna solidariedade entre Coreia Popular e Cuba nasceu em 1960, desde a visita de Ernesto “Che” Guevara ao país para estabelecer oficialmente as relações diplomáticas entre as duas pátrias. Ele e Fidel Castro, em diversas obras e eventos, sempre afirmaram sua admiração e gratidão à República Popular Democrática da Coreia por ter inspirado e apoiado a derrubada do regime opressor de Fulgêncio Batista na ilha caribenha.

Sobre sua viagem a Pyongyang, Che Guevara escreveu que a Coreia Popular teria sido, de todos os países socialistas que visitara, talvez o mais impressionante. Nos escritos, lembrou do terror que passou junto a seus companheiros guerrilheiros — incluindo Fidel — quando, exilados na Serra Maestra (região serrana de Cuba), enfrentaram perigosos ataques das forças de Batista que bombardearam a região com o apoio bélico de Washington na tentativa de exterminar os revolucionários. Segundo Che, na ocasião (que deixou vítimas inocentes) foram despejadas entre 10 a 12 bombas, enquanto cada grande fábrica norte-coreana teria sido alvejada por cerca de 50.000 bombas durante a Guerra da Coreia (1950-1953). Sete anos após o covarde massacre — ainda insuficiente para lograr a vitória dos EUA no confronto —, Che Guevara se mostrava positivamente chocado por ter desembarcado em um país, segundo suas palavras, “com acelerada estrutura de industrialização e mecanização agrícola” e “com um desenvolvimento cultural praticamente ilimitado”.

Ernesto Guevara, o “Che” Guevara, dançando com coreanos durante sua visita a Pyongyang, em 1960.
Che Guevara e Kim Il Sung, respectivamente Presidente do Banco Central de Cuba e Premiê da Coreia Popular, se divertem durante jantar em Pyongyang.

Outra grande prova de amizade foi em 1962. Um ano após a fracassada invasão de mercenários também remunerados pela inteligência norte-americana à Baía dos Porcos, em Cuba, os cubanos solicitaram à União Soviética armamentos de defesa, temendo ataques posteriores mais poderosos. Em plena Guerra Fria, o governo soviético atendeu ao apelo e iniciou a construção de uma base de mísseis no território cubano. Em seus voos de monitoramento, os Estados Unidos detectaram o plano, culminando em um período marcado por tensão e iminentes ameaças de guerra por parte dos EUA contra Cuba. Após uma complicada negociação combinada por diversas decisões tomadas e mudadas, Nikita Kruschev, líder da União Soviética, atendeu ao pedido do presidente John Kennedy e desmontou a base de defesa em Cuba, o que, na opinião de outros países socialistas (como a Coreia Popular), teria sido um ato de traição que exporia Cuba a um perigo incalculável de extermínio. Na ocasião, inúmeras embaixadas deixaram a ilha cubana por medo de uma ameaça real de guerra nuclear, porém não só a embaixada como os estudantes norte-coreanos que faziam intercâmbio em Cuba decidiram se armar e lutar ao lado do revolucionário povo cubano, caso houvesse de fato esse confronto. Alguns arquivos de antigos países que compunham o bloco soviético sugerem que a atitude tomada por Kruschev teria abalado de vez a confiança de Kim Il Sung em Moscou, embora a URSS tenha nutrido boas relações com a RPDC até sua dissolução.

Fidel Castro, Raúl Castro e o atual Presidente do Conselho de Estado de Cuba, Miguel Díaz-Canel, já estiveram na Coreia em diversas ocasiões. Assim como eles, também estiveram em Cuba Choe Ryong Hae e Kim Yong Nam, respectivamente Chefe de Estado e Primeiro Ministro da RPDC nas ocasiões. As pautas dos encontros sempre envolvem cooperações bilaterais entre as nações socialistas amigas para se alinhamento no enfrentamento às pressões e dificuldades impostas pela hegemonia imperialista.

Na data em que este texto está sendo publicado, Cuba enfrenta um delicado momento de iminente ameaça de golpe contra a soberania e a liberdade do povo cubano. Como sempre ocorreu na história, a pequena e valente ilha certamente poderá contar com a solidariedade dos irmãos coreanos e de todos os movimentos anti-imperialistas.

Choe Ryong Hae, na época vice-presidente do Comitê de Estado e atualmente Chefe de Estado da RPDC, se reunindo em Havana com o Presidente do Conselho de Estado de Cuba, Miguel Díaz-Canel em 2018.
Kim Yong Nam, então Chefe de Estado da RPDC, em encontro com o Presidente do Conselho de Estado de Cuba, Miguel Díaz-Canel, em Havana, 2018.
Fidel Alejandro Castro Ruz e Kim Il Sung, até então presidentes de Cuba e da Coreia Popular, em confraternização durante a visita do líder da Revolução Cubana a Pyongyang, em 1986.

Leituras complementares:

  1. Escritos de Che Guevara sobre a RPDC: https://www.estantevirtual.com.br/livros/ernesto-che-guevara/obras-completas/3646419357 (páginas 57 e 58)
  2. Invasão à Baía dos Porcos: https://www.scielo.br/j/rbpi/a/jfBNJdvRwNTFGQgyL5Ttxpb/?lang=pt
  3. Crise dos Mísseis em Cuba: https://www.scielo.br/j/vh/a/MFYhWfDFYj5qCRJTkbfQXVz/?format=pdf&lang=pt
  4. Posicionamento da Coreia Popular sobre a atitude de Kruschev na Crise dos Mísseis em Cuba (inglês): https://www.wilsoncenter.org/publication/north-korea-and-the-cuban-missile-crisis

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