Na madrugada desse dia 3, todo o mundo recebeu com cólera as notícias sobre a invasão e bombardeios da Venezuela e o sequestro de seu Presidente, Nicolás Maduro, e sua esposa por parte do imperialismo estadunidense encabeçado por Donald Trump — infame belicista e megalomaníaco. O que chama particular atenção neste caso não é a invasão descarada de um território soberano por este império, que já tem o longo histórico de maior organização terrorista e pior violador de direitos humanos do mundo, mas sim a forma espantosamente fácil com que ali entraram e sequestraram o Presidente e sua esposa: 47 segundos e sem baixas — segundo o próprio Trump na coletiva de imprensa dada no mesmo dia. E não estamos falando de um país pego de surpresa ou despreparado: a Venezuela tem encarado o imperialismo estadunidense há muitos anos, e nos tempos recentes também, com a retórica crescentemente ofensiva de Trump, tem feito preparativos para o caso da eclosão de uma guerra, mobilizando exército e povo — que, vale mencionar, está organizado em uma milícia civil que soma cerca 5 milhões de membros. E, ainda assim, tomaram xeque-mate em apenas 47 segundos. Que lições podemos extrair de mais esse episódio doloroso da história?
Ao ver esse lamentável desdobramento dos eventos, as pessoas, como de costume, recobram aquela grande verdade aprendida pela humanidade progressista a duras penas: o único diálogo que o imperialismo entende é a arma nuclear. Nem paz nem conciliação fazem parte de seu linguajar. E aqueles que, por bem ou por mal, tentaram este caminho, acabaram sofrendo uma sorte desagradável. Aqueles que, por outro lado, compreenderam bem cedo a realidade, sobreviveram e prosperaram. Tal é a verdade que a história oferece. E entre os países que melhor compreenderam tal verdade e mostraram sua justeza na prática está a República Popular Democrática da Coreia — país pequeno em extensão geográfica, mas que, resistindo às provocações militares e tentativas de estrangulamento por parte dos EUA durante décadas e, ao cabo de muita luta e persistência, logrando finalmente dobrá-lo à sua vontade, tornou-se gigante e a referência de soberania e independência para todos os povos do mundo.
Mas há algo sobre esse pequeno país gigante que a maioria das pessoas não sabe ou não nota. Não se trata apenas de possuir armas nucleares potentes e capazes de atravessar o globo. Mesmo que a Venezuela as possuísse hoje, isso não teria impedido nem revertido o quadro: os EUA conseguiram — apesar das preparações políticas, militares e civis para uma guerra feitas pelo país — cirurgicamente invadir e tomar o Chefe de Estado com a maior facilidade do mundo. É inegável que a proximidade geográfica entre ambos os países favorece o feito, mas de que país os EUA não estão perto, com suas infinitas bases militares espalhadas pelo globo? Ter armas nucleares nesta situação não mudaria nada. É claro que possuir a capacidade autodefensiva — com que dispor de seus próprios armamentos, de sua própria produção, sem depender de ajuda ou apoio externos — é um requisito indispensável para a soberania que os coreanos aprenderam e levaram a cabo, e que a Venezuela não pôde satisfazer plenamente. Mas há um fator muito mais importante, precedente à própria capacidade técnico-militar: a preparação político-ideológica do povo.
O eterno Presidente Kim Il Sung — ninguém menos que o homem que derrotou dois imperialismos em uma geração, o japonês e o ianque — percebeu, já nos tempos da guerrilha anti-japonesa, duas verdades: a de que a conquista e a manutenção da independência dependem das armas (o que os coreanos chamam de “Ideia Songun”); e a de que o fator decisivo da vitória não está exatamente no armamento, mas na preparação ideológica de quem os maneja. Foi com essa ideologia que o povo coreano, recém-liberto do domínio colonial fascista japonês e no fuzil, venceu, em 1953, os EUA da bomba atômica. A revolução coreana avançou, triunfou e perdura por dar a devida importância à consciência ideológica — que guia e regula as ações das pessoas. Foi, entre outras coisas, por negligenciar este fator tão importante e imprescindível que tantos países socialistas e independentes ruíram no passado — seja desde dentro, com a permissão da infiltração da ideologia burguesa em seu seio, ou por invasões externas contra as quais não tinham tal prontidão para lutar. Compreendendo desde cedo estas verdades e não se esquecendo delas nem por um segundo, os coreanos fizeram armar firmemente todas as pessoas com a consciência de classe e a ideologia comunista — com as quais percebem claramente a sua posição e distinguem o aliado do inimigo, conhecem este último e a sua natureza imutável — e, com isso, triunfaram em 1953 apesar da abissal desvantagem numérica e técnica, repeliram todas as tentativas de reacender a contenda (não formalmente encerrada) até o presente, e lograram colocar Trump, que falava de resolver a questão com “fogo e fúria”, na mesa de negociações e fazê-lo chamar o Marechal Kim Jong Un de “great leader“.
Portanto, não é só por possuir mísseis balísticos intercontinentais capazes de carregar ogivas nucleares que a Coreia Socialista se mantém de pé; já o fazia antes de tê-los, e o fez no seu pior momento: em meados dos anos 90, quando, com a queda da União Soviética e de todo o bloco socialista, o foco do imperialismo se concentrou na Península Coreana e eles não tinham ninguém com quem contar. Mas tinham o bem mais precioso e poderoso: o povo. E este, totalmente preparado para pegar em armas e se transformar em balas e bombas em defesa do regime escolhido por ele e de seu Comandante Supremo, manteve de pé a Coreia socialista e veio colhendo apenas vitórias.
Na preparação ideológica das massas, particular ênfase foi dada pelos coreanos, durante todo o seu percurso histórico, à unidade indestrutível e à defesa intransigente do líder. Algo que, para muitos aqui, é tomado como “estranho” ou “exagerado”, ou até como algo apenas circunstancial à situação de perigo permanente de guerra em que o país se encontra. Mas agora, ao ver a situação venezuelana — que não é inédita, se recordarmos da Líbia e do Iraque — onde o presidente foi sequestrado em menos de um minuto, parece plausível tomar como “exagero” ou “inoportuno” essa questão? O alvo da reação é sempre o líder do povo, tanto nas propagandas midiáticas quanto nas invasões militares. Porque, ao derrubá-lo, desmorona-se todo o resto: bagunça-se a ordem interna e, pior, abala-se o moral e a fé na vitória certa. Guardando no coração este fato aprendido já na luta anti-japonesa, o povo coreano forma um muro impenetrável e jura defender com a vida o seu líder — que é, precisamente, o seu destino — e abriga a fé de que, enquanto contarem com a direção dele, certamente triunfarão. Ao relegar esta questão a algo “exagerado” ou “inoportuno” — o que é uma infeliz sequela do XX Congresso do Partido Comunista da URSS que persiste até os dias de hoje no movimento comunista internacional — torna-se muito difícil pensar na vitória e na sustentação de uma revolução.
O grande fato que contribui para essa tragédia, condicionando a falta ou insuficiência de todos estes aspectos mencionados acima, reside na limitação do próprio regime venezuelano, que é capitalista. É absolutamente impensável tal estado de preparação político-ideológica e unidade inquebrantável do povo em torno do líder na sociedade capitalista, onde nem o poder estatal nem os meios de produção nem o poder militar estão sob controle da classe trabalhadora e onde o mandatário não é mais do que um administrador do Estado. É claro que Maduro, em virtude do processo revolucionário iniciado por Chávez, excede um pouco essa limitação em sua liderança, mas por mais que tente fazê-lo, por mais que se posicione como um firme anti-imperialista e busque o apoio das massas, sem a transformação radical da sociedade capitalista — com o partido que dirige de forma unificada a totalidade da vida social e o Estado, e este, por sua vez, assegura a ditadura revolucionária contra os inimigos de classe e mantém os meios de produção e as forças armadas nas mãos e a serviço do povo — não é possível alcançar a unidade com que impedir e repelir a agressão imperialista. Sem realizar a independência das massas populares — que só é possível no socialismo — não é possível formar o corpo sociopolítico em que todo o povo está unido como um só sob a direção do líder, que constitui o cérebro máximo deste corpo. Assim, o povo ficará ideologicamente dividido e débil: cada um com uma diferente visão de mundo, alguns, inclusive, com ideologias opostas à soberania do próprio país, será incapaz de se levantar e lutar e, finalmente, acabará como vassalo do imperialismo. Isso pra não falar do exército que, em tais condições, facilmente se vende e capitula diante do agressor. É porque, na sociedade capitalista, o que rege a sua ação não é a consciência ideológica revolucionária, mas o dinheiro. E como o General Kim Jong Il — que conduziu vitoriosamente o confronto anti-imperialista no seu momento mais agudo — ensinou: “O fuzil tomado às cegas, sem consciência de classe e resolução revolucionária, é, de fato, menos inútil que um graveto”1. Em tal circunstância, é impossível unir todo o povo com uma só ideologia e em torno de um único centro e travar a luta de vida ou morte contra o império.
Sem considerar as muitas limitações impostas pelo modelo venezuelano, verdadeira soberania e independência são impensáveis. E esta foi, é e será a realidade que, infelizmente, experienciaram muitos países que ousaram contrariar o império nos limites do sistema capitalista e, provavelmente no futuro também, outros ainda experimentarão.
Nestes momentos de crise, prestemos, antes de mais nada, o apoio e a solidariedade irrestritos ao país agredido pelo imperialismo e olhemos para a experiência de magistral defesa da soberania coreana, não apenas em relação ao arsenal nuclear e equipamento militar, mas, primeiramente, ao seu regime político e aos homens e mulheres que, empoderados pelo socialismo jucheano, manejam-nos e formam a muralha inexpugnável em torno de seu país. Somente através do socialismo, verdadeira liberdade, soberania e independência são alcançáveis — tal é a lição cara que nos ensina a revolução coreana.
“Nós, que defendemos a ideia Juche, devemos reprimir firmemente o maligno espírito anticomunista do inimigo com a superioridade espiritual e moral antes da superioridade militar e técnica, e exibir o poderio do exército revolucionário que vencerá sem falta com a ideologia e a moral comunistas.”2 — KIM JONG UN
Matheus Knupp, Instituto Paektu – Brasil
Referências:
- Aforismos de Kim Jong Il. 2008
- KIM JONG UN. “Sobre a situação criada e as tarefas dos chefes e instrutores políticos de batalhão das forças armadas da República”. 2024
