Existe semelhança entre Kim Jong Un e Bolsonaro? Especialista analisa

Nas últimas semanas, as críticas ao governo Bolsonaro e sua condução do país no momento de uma das piores crises da História têm tomado dimensões ainda maiores nas redes sociais. Um fenômeno, porém, tomou força principalmente após figuras públicas e influenciadores digitais terem comprado a ideia: a comparação entre Jair Bolsonaro e Kim Jong Un.

O que pode parecer muito nítido para algumas pessoas, na verdade pode exigir uma explicação mais cuidadosa e embasada. Para resolver esse enigma que tomou conta da internet há muito pouco tempo, o Centro de Estudos da Política Songun do Brasil ouviu o Prof. Diego Pautasso, especialista no tema. Pautasso, que é Doutor em Ciência Política pela UFRGS e Professor do Colégio Militar de Porto Alegre, concedeu uma entrevista ao CEPS-BR, que foi publicada em vídeo no nosso canal e também em podcast em plataformas online (como o Spotify).

O CEPS-BR reúne aqui os pontos mais relevantes da análise.

Militares

Um dos principais pontos de comparação dos críticos ao governo de Bolsonaro (e ao governo de Kim Jong Un) é que ambos os governantes possuem relações muito próximas das forças armadas. A imagem que Kim Jong Un tem de relação boa com os militares (sendo ele um próprio) e a intensa atividade bélica do país acabaram por gerar essa comparação. Para Diego Pautasso, entretanto, é necessário se diferenciar os dois tipos de exércitos na Coreia e no Brasil:

“Os países socialistas têm nas forças armadas um pilar de independência e soberania, usando-as como instrumento de desenvolvimento nacional, enquanto que no Brasil as forças armadas têm apenas um papel de tutela na atualidade e não têm grandes semelhanças de atuação com o antigo regime militar. O governo Bolsonaro tem uma agenda neoliberal que não se encontra com soberania nacional.”

Mais adiante, o especialista também explica que a realidade e o contexto da Coreia do Norte perpassam momentos de guerras internas e externas, intervenções estrangeiras, tensões da Guerra Fria e o próprio processo revolucionário que colocaram as forças armadas como uma necessidade real de atuação para estabilidade nacional. “Vale lembrar que os países do Eixo do Mal dos anos 1990 foram totalmente destruídos, mas a Coreia, apesar de tudo, mantém sua soberania e dignidade”, destaca.

Questionado sobre a questão do real poder dos militares nos dois governos, levando em conta o alto número de militares em cargos de poder na atual gestão Bolsonaro, o Prof. Diego explica que há problemáticas em se confundir estruturas de poder real e formal, lembrando que a atuação do Exército foi imperativa durante os anos de evolução da Coreia do Norte, mas que isso não tem relação com a real comandância no país. Ele lembra que no Brasil, por exemplo, as forças armadas por várias vezes ultrapassaram suas competências institucionais e alteraram o cenário político, como com a remoção de Dilma do poder em 2016 e a participação das eleições ao lado de Bolsonaro em 2018, ganhando como parte da recompensa cargos no atual governo.

Economia

Outro meio de notar se cabem comparações entre Bolsonaro e Kim Jong Un é se analisar a questão econômica. Lembrando o leilão de portos, ferrovias e aeroportos da semana passada, o CEPS-BR indagou ao Prof. Diego sobre a condução econômica dos dois governos, que respondeu:

“Dentre todos os países socialistas remanescentes, a Coreia é o que possui maior parte da sua economia estatizada e isso se deve a vários fatores, principalmente pelo cerco econômico que o país sofre por parte do resto do mundo, fator que forçou o país a desenvolver uma autonomia e buscar soluções internas para seus desafios. No caso do Brasil, o atual governo, embora envergue a bandeira do patriotismo — tanto em gestos caricatos, como bater continência para outra bandeira, quanto em condução objetiva da política econômica —, tem como projeto a alienação dos ativos das empresas brasileiras. Não há qualquer esboço de defesa da economia e dos interesses nacionais, seja no plano da política externa ou no campo dos interesses estratégicos que conduzem o país. As concessões seriam até menor perto de outros crimes de lesa-pátria, como o caso da Petrobrás, ou da Embraer, que só não foi vendida à Boeing por opção da própria empresa estrangeira.”

Relembrando o VIII Congresso do Partido do Trabalho da Coreia, no qual Kim Jong Un anunciou uma série de construções de casas, cidades, escolas e prédios públicos por meio da iniciativa estatal, perguntamos sobre a diferença entre o líder coreano e o brasileiro no que se refere à atenção às populações carentes. O Prof. Diego ressaltou que são dois modelos econômicos completamente diferentes (o do Brasil e o da Coreia, que é planificado), e também lembrou que a iniciativa de pagar R$ 600,00 durante a pandemia foi uma proposta da Câmara, pois o próprio governo federal não tinha desejo de pagar esse valor. E ele vai mais além:

“diante de uma pandemia cujo o número de mortos ultrapassa hoje 350.000 mortos, o Brasil tem um dos piores desempenhos de combate à pandemia do mundo inteiro. E isso não se trata de coincidência, mas sim de uma incapacidade de condução. Obviamente essas mortes recaem mais sobre populações carentes e não vemos medidas de amparo e proteção. Ao contrário: vemos um estímulo sistemático à desordem, a um funcionamento atabalhoado da economia e isso só poderia resultar nesse descarrilamento tanto da economia nacional quanto das questões sanitárias relativas à pandemia. Sobre a Coreia, quando eu dava uma cadeira sobre Estudos Asiáticos na ESPM, eu começava mostrando imagens de Pyongyang (capital da Coreia Popular) e outras cidades coreanas. Afinal, a visão vendida da Coreia aqui no ocidente é que o país é formado por um conjunto de soldados e um presidente onipresente e onisciente. Quando as pessoas começam a ver o nível de urbanização, as escolas, os hospitais, as áreas agrícolas etc., elas se dão conta que “aquele monstro é bem menor do que aquele pintado aqui”. Essa é uma forma de provocar nos alunos e nos telespectadores uma curiosidade, para que eles se perguntem: “De que país exatamente estamos falando? Que país é esse que consegue construir tudo isso apesar dos cercos militares e comerciais?”. Enfim, acho que a Coreia, apesar das suas inúmeras dificuldades, é um país que praticamente não tem terras agriculturáveis, possui um clima absolutamente adverso (calor tremendo no verão e neva boa parte do inverno) e que, apesar disso, consegue manter a soberania e o mínimo de dignidade ao seu povo. Isso precisa ser levado em consideração. Por outro lado, o Brasil, abundante em recursos naturais e clima favorável, que tem um povo trabalhador, hoje em dia tropeça nas próprias pernas, conduzido por uma elite que infelizmente é incapaz de colocar o Brasil em uma posição compatível com sua estatura.”

Ainda nesse tema, relembramos que o governo Kim Jong Un nunca escondeu seus problemas econômicos, sempre apontados em relatórios do governo ou de conferências partidárias, mas que também sempre apontou os cercos militares, bloqueios econômicos e outras medidas adotadas pelos países estrangeiros que inviabilizam o desenvolvimento pleno da economia norte-coreana. Diferenciando isso da situação brasileira, o Prof. Diego Pautasso mencionou que:

“No caso do Brasil, ao contrário, há um projeto de restabelecimento da fome fruto de um conjunto de medidas políticas. Não é uma circunstância, um constrangimento externo ou ambiental nem natural, mas sim uma opção política adotada pelo governo. Após um ciclo do período lulista que retirou cerca de 40 milhões de pessoas da pobreza, em função de uma série de políticas adotadas, estamos devolvendo grande parte dessas pessoas à miséria extrema.”

Relações exteriores

As relações exteriores da Coreia sempre foram muito conturbadas, com a iminência da guerra sendo uma constante. O Brasil, desde o início do governo Bolsonaro, também tem tido turbulências nas relações exteriores, inclusive com horizontes de guerra contra a Venezuela e uma frase polêmica devido a vitória de Biden nas eleições, quando Bolsonaro mencionou que “quando acaba a saliva, resta a pólvora”. Perguntado se há semelhanças entre essas vontades de guerra de Kim Jong Un e Bolsonaro, Diego Pautasso explica que na verdade não há desejo de guerra por parte da Coreia, mas sim um projeto para a manutenção de um país que foi atacado, enquanto que no governo Bolsonaro há uma iniciativa própria de causar problemas diplomáticos, a contar com a Argentina, Cuba e Venezuela, ensaiando inclusive um ataque militar a esta última, atendendo a interesses estrangeiros e não genuinamente brasileiros, mesmo com um país que na última década foi um dos maiores parceiros comerciais legais.

Sobre a influência estrangeira, o Prof. Diego também nota outra gritante incongruência na comparação Kim-Bolsonaro – a Coreia nunca abriu mão de escolher o seu modo de condução e mesmo na Guerra Fria não se curvou à China ou União Soviética e mesmo hoje a Rússia e China não controlam o país, como atestam diplomatas, enquanto que o caso Bolsonaro é um exemplo nítido de atenção às demandas externas, principalmente dos Estados Unidos, ao brigar com países estrategicamente aliados e se afastar de projetos como o BRICS, automaticamente se colocando ao lado de Trump. Ele também lembra da respeitabilidade que a Coreia do Norte alcançou sozinha ao levar Trump à mesa de negociações, por exemplo.

Lembrando a condução do até pouco tempo chanceler Ernesto Araújo na pasta das relações exteriores do Brasil, com suas gafes ou atitudes subalternas, o CEPS perguntou se há diferença com a condução da mesma pasta na Coreia do Norte. O Prof. Diego imediatamente apontou que, mais uma vez, a Coreia sempre se moveu no sentido da independência e cooperação com outros países, atitude essa defendida por seus ministros do exterior, enquanto que no recente caso brasileiro o caminho tomado foi pela submissão.

Pandemia

A última parte da entrevista tocou em um assunto que interessa a todos, a pandemia. Alvo de comparações até nisso, Kim Jong Un muitas vezes foi usado como figura para criticar negativamente Bolsonaro. Sobre isso, o CEPS-BR perguntou ao especialista sobre a condução da pandemia, levando em consideração a velocidade da tomada de ações pelos dois governos diante da Covid. Sobre isso, respondeu o Professor:

“A Coreia, em janeiro de 2020, quando surgiram as primeiras notícias na China, bloqueou o acesso ao país e, a partir dali, começou a enfrentar de forma muito consciente os riscos de uma contaminação em escala e conseguiu administrar completamente a situação. Alguns podem questionar a insuficiência de informações, mas o fato concreto é que isso não ocorreu apenas na Coreia, como também na China, no Vietnã etc. (…) No Brasil, ao contrário, a pandemia foi tratada como uma “gripezinha” e o presidente tomou medidas totalmente antagônicas às prescritas pela OMS e pelos cientistas especialistas na temática da COVID-19. Estimulou aglomerações, foi contrário ao uso de máscaras, ao distanciamento, sabotou medidas de lockdown e, mais importante do que isso, sabotou todos os acordos prévios que havia para compra de vacinas, ou negou quando lhe foi oferecido. Obviamente isso explica a situação do Brasil, que só não é mais dramática por ações de organismos públicos como Butantã e Fiocruz e de governadores e prefeitos que encararam com seriedade o caso. Além disso, temos o Sistema Único de Saúde (SUS) que, apesar das suas dificuldades, tem uma cobertura muito ampla e foi quem literalmente abraçou a maior parte das pessoas infectadas e ajudou o Brasil a não se tornar uma calamidade histórica ainda maior.”

Em meados de 2020, Bolsonaro decidiu parar de emitir as informações de mortos e contaminados diários em tempo real e isso, na época, gerou mais uma comparação entre os dois líderes, que inclusive foi explicada pela nossa organização. Sobre se haveria semelhança na medida de vetar a informação pública e aberta para as pessoas entre Kim Jong Un e Bolsonaro, o Prof. explicou:

“Estudo a China há um bom tempo e frequentemente quando há êxito em alguma ação, logo se questiona a legitimidade dos dados. Porém, quando se vê a trajetória da China na prática, fica evidente que os números são compatíveis com a realidade, refletindo um desenvolvimento frenético. Quem acompanhou de perto o combate da China à pandemia, que efetivamente traçou uma operação de guerra contra o vírus, entende por que o número de mortos foi muito pequeno em comparação ao tamanho da população. No caso da Coreia, idem. É óbvio que o país já é isolado no sentido de fluxo turístico, por conta dos embargos, e isso acaba sendo uma vantagem relativa no combate à pandemia, pois essa situação facilitou o fechamento do país e, com o país fechado, eles conseguiram obter um excelente controle acerca do vírus. Logo, para além da questão numérica divulgada, há uma lógica por trás disso. Já no caso do Brasil, é o contrário. Não apenas se trabalhou contra o combate à pandemia com uma estratégia abertamente anticientífica, como se buscou sabotar a informação acerca do que vinha ocorrendo. A primeira medida do Ministro Pazuello, que aliás não tinha nenhuma expertise na área da saúde, foi justamente interromper o fluxo de informações que teve de ser remontado através de outros mecanismos de cooperação da mídia com prefeituras e governos para que pelo menos pudéssemos ter uma ideia do descaminho na condução da pandemia.”

A postura dos dois líderes também foi questionada. Kim Jong Un, em uma parada militar no final do ano passado, se emocionou ao agradecer que os coreanos estavam sem casos de Covid e todos bem e depois, em janeiro desse ano, mencionou durante o VIII Congresso, que o bem-estar das pessoas está acima de todas as coisas. Ao mesmo tempo, Bolsonaro sempre se referiu com outros termos à pandemia, dizendo coisas como “é só uma gripezinha”, “e daí?”, “as pessoas morrem mesmo, lamento”. No fim, perguntamos se sobre isso também há sentido em comparar os dois líderes. Recebemos como resposta:

“Sentido nenhum. Quem acompanha um pouquinho a temática da Coreia e busca entender a cosmologia do pensamento coreano, a forma de fazer política e de entender a sociedade do Extremo Oriente, de um modo geral, entende que há um nível de comprometimento dessa estrutura Estado-sociedade e um nível de coesão que é diferente. A percepção da liderança é diferente. E aqui no Brasil há uma fragilização incrível das instituições governamentais e de Estado. Há uma crescente deslegitimidade e uma escalada de instabilidade que coloca em risco o próprio ordenamento político do país. Enfim, acho que essas declarações de Bolsonaro não apenas não contribuíram para a gestão da pandemia como contribui para a própria instabilidade que o Brasil vem enfrentando desde a reeleição da ex-presidenta Dilma.”

Você pode conferir a entrevista completa no nosso canal:

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Lucas Rubio e Adriano Lima
CEPS-BR

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