Quem começou a Guerra da Coreia?

O senso comum elegeu a Coreia do Norte como a causadora da Guerra da Coreia, deixando para esse país a culpa por um conflito que durou 3 anos e vitimou milhões de vidas em toda a Península Coreana.

Porém, conforme o tempo passa, mais evidências vão surgindo e velhas certezas vão se abalando com a aparição de fatos nunca antes revelados ou pensados de maneira crítica.

Afinal, será mesmo que foi a República Popular Democrática da Coreia – a Coreia do Norte – que deflagrou a guerra na península?

Um breve retrospecto

Historicamente, foi registrado que os EUA e a URSS dividiram a Coreia, os primeiros ocupando o Sul e os outros o Norte em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial.

No Norte, os soviéticos deixaram os aparatos administrativos para os nativos coreanos e logo em seguida foram embora.

Já na área de influência dos Estados Unidos ao sul, as autoridades estadunidenses se recusaram a reconhecer completamente as autoridades coreanas e acabaram por criar um governo militar americano que governava através de intérpretes. Os EUA tinham o controle total sobre a região e, em 1948, Syngman Rhee, um coreano pró-estadunidense que havia vivido e estudado nos EUA décadas antes, foi escolhido como líder da então proclamada República da Coreia, em grande parte com base em seu forte credo anticomunista e personalidade submissa. Além disso, Rhee acreditava que a reunificação da Coreia só poderia ser alcançada através das armas.

Ganância de poder, anticomunismo e simpatia pelos EUA: a personalidade de Syngman Rhee praticamente o transformou na escolha natural para ser o presidente da Coreia do Sul, nascida da ocupação militar estadunidense comandada pelo General Douglas MacArthur. Na foto, ambos se abraçam calorosamente. (Foto: NARA FILE)

Com a consolidação de um Estado socialista no Norte e um presidente anticomunista no Sul, o espectro da Guerra Fria se materializou sobre a Coreia e a possibilidade de um conflito direto entre as duas partes tornava-se comum na vida do povo coreano.

A guerra de 1950

Bem, mas quem de fato iniciou a Guerra da Coreia?

A posição oficial dos Estados Unidos e da República da Coreia (Coreia do Sul) é que o Norte iniciou o conflito. A seguir, podemos ler um telegrama de John J. Muccio, embaixador dos EUA em Seul, enviada para Washington em 25 de junho de 1950 e disponível para consulta no site do Departamento de Estado dos EUA:

«Segundo relatos do exército coreano, parcialmente confirmados por relatos de conselheiros no campo de batalha do Grupo Consultivo Militar Americano (AMAG), forças norte-coreanas invadiram a República da Coreia através de diferentes partes do território esta manhã. Ações iniciadas às 4:00 da manhã de hoje. Ongjin foi atacada por fogo de artilharia norte-coreana. Também por volta das 6:00 da manhã a infantaria norte-coreana começou atravessando o Paralelo 38 nas áreas de Ongjin, Kaesong e Chunchon, e um desembarque anfíbio foi relatado ao sul de Kangnung, na costa leste. Kaesong foi tomada às 9:00 da manhã com a participação de cerca de dez tanques norte-coreanos na operação. Forças norte-coreanas, apoiadas por tanques, supostamente se aproximam de Chunchon. Os detalhes da agressão na área de Kangnung são confusos, embora a Coreia do Norte pareça ter danificado a rodovia. Esta manhã conversei com os consultores da AMAG sobre a situação. Parece, pela natureza do ataque e como foi lançado, que se constitui uma ofensiva total sobre a República da Coreia.»

Essa mensagem do embaixador dos EUA foi e ainda é usada como evidência cabal da agressão vinda do Norte, o que é algo muito curioso e problemático do ponto de vista historiográfico. Uma palavra de um embaixador, ainda mais de um país envolvido e diretamente interessado no conflito, não constitui uma prova.

O Norte nega categoricamente o conteúdo da mensagem de Muccio e insiste que foi o Sul que iniciou a guerra.

Embora concorde com os Estados Unidos e a Coreia do Sul que a guerra total foi iniciada nas primeiras horas de 25 de junho de 1950, o Norte enfatiza que, na realidade, as lutas haviam começado dois dias antes.

De fato isso aconteceu. Às 22h00min de 23 de junho de 1950, as forças do Sul, na parte oriental de Ongjin, iniciaram um bombardeio com obuses de 105 mm e realizaram lançamento de morteiros pesados através da linha de defesa do Norte. Esse bombardeio durou cerca de 6 horas seguidas. As forças do Sul já tinham usado esse tipo de ataque várias vezes nos anos anteriores como cortina de fumaça para incursões de comando, mas essa era a primeira vez que o bombardeio durou tanto tempo.

As seis horas de combate foram seguidas por um período de silêncio; pouco depois, recomeçaram a luta com menos intensidade e continuaram até o amanhecer de 25 de junho.

Alguns dias antes desse ataque, um enviado especial dos EUA, o Secretário de Estado John Foster Dulles, tinha visitado o Paralelo 38, fronteira entre o Norte e Sul da Coreia. Ele estava acompanhado do Ministro da Defesa da Coreia do Sul, Shin Sung Mo, e fez várias inspeções à unidades militares. Como cita o Dr. Dermot Hudson, em um brilhante artigo sobre a Guerra da Coreia, Dulles, logo depois da inspeção, teria dito aos sul-coreanos:

“Nenhum inimigo forte, qualquer que seja, poderia opor-se a vocês. Mas, espero que se esforcem cada vez mais, porque não está tão longe o dia que terão de mostrar o seu poder, a sua força para o seu próprio bem. (…) Vocês não estão sozinhos. Vocês nunca estarão sozinhos enquanto continuarem desempenhando dignamente a parte de vocês no grande projeto pela liberdade dos seres humanos”.

O Dr. Dermot também pondera:

«Depois de visitar a Coreia do Sul, Dulles parou em Tóquio e se reuniu com o General Bradley e o General Douglas McArthur, bem como o Secretário de Defesa dos EUA Johnson. Mais uma vez esta reunião não pode ter sido uma coincidência. No dia 22 de junho, Dulles declarou, de maneira um tanto codificada e enigmática: “os Estados Unidos em breve tomarão algumas medidas positivas”. Era evidente que a reunião era para finalizar a provocação da Guerra da Coreia.»

John Dulles, ao centro, de chapéu e terno preto, observa o Norte no Paralelo 38 da Coreia. Ele está acompanhado de Shin Sung Mo (à sua direita), então Ministro da Defesa sul-coreano. (Foto: Princeton University Library)
Dulles, Secretário de Estado dos EUA, observa relatórios durante visita ao Paralelo 38, junho de 1950. Note que o Ministro da Defesa sul-coreano está em segundo plano, apenas observando os planos de ação dos verdadeiros mandatários da Coreia: os americanos.

As forças do Sul que Dulles visitou estavam posicionadas ao longo da fronteira leste, central e oeste e se encontravam prontas para a ação. No ataque inicial, as forças sul-coreanas avançaram 1 ou 2 quilômetros em Haeju, Kumchon e Cholwon, pertencentes à parte Norte.

Na parte ocidental da frente, o 17º regimento da divisão metropolitana do exército sul-coreano foi em direção de Taetan e Pyoksong, a 1ª Divisão de Infantaria descarregou seu ataque em três direções da periferia da cidade de Kaesong e a 7ª Divisão de Infantaria invadiu a região de Ryonchon.

Na frente oriental, a 6ª Divisão de Infantaria do Exército atacou em direção à Hwachon e Yanggu, e a 8ª divisão atacou Yangyang de três lados.

Nesse momento, as forças do Norte foram ordenadas a pararem o avanço das forças do Sul e começarem um contra-ataque decisivo, que aconteceu de fato em 25 de junho de 1950 e que acabou sendo marcado como o único início da Guerra da Coreia. Desconsiderar as ações do Norte em 25 de junho como um contra-ataque e ignorar o contexto dos dias anteriores é uma cegueira histórica.

Portanto, como demonstrado, o Sul iniciou a Guerra da Coreia como era desejado por Ryngman Rhee, que durante anos ameaçava o Norte com o “Pukjin” (invasão ao Norte), desejo esse que foi inflado e legitimado pelos EUA que prometeram socorrer a Coreia do Sul usando sua influência na ONU e aproveitando o afastamento temporário da URSS do Conselho de Segurança.

Para além disso, a adoção em tempo recorde da resolução da ONU que carregou dezenas de países para o conflito e evacuações antecipadas por parte dos EUA também nos mostram que esse país arquitetou todo o estratagema da guerra, crendo estar iniciando um conflito que seria rápido e fácil, mas que se mostrou um terrível engano que custou muitas vidas e acabou levando, depois de 3 anos, à assinatura do armistício – um cenário muito distante da vitória anticomunista que desejavam os estadunidenses em 1950.

Você quer entender ainda mais sobre esse assunto? Recomendamos um livro recentemente lançado em português e escrito por acadêmicos coreanos chamado «Os Imperialistas dos Estados Unidos iniciaram a Guerra da Coreia», disponível na página do site NovaCultura.INFO.

Gabriel Tanan, Centro de Estudos da Política Songun – Brasil

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