A paciência não é eterna: entenda o que está acontecendo na Coreia

Desde o fim da Guerra da Coreia, a República Popular Democrática da Coreia demonstrou em muitas ocasiões a sua vontade de assinar um tratado de paz formal para terminar com o conflito na região e com isso conseguir conquistar a reunificação pacífica e independente da Coreia, tendo como proposta a ideia de um Estado e dois regimes.

Com o passar dos anos, as relações entre os dois países melhoravam ou pioravam, de acordo sempre com as medidas tomadas pelas autoridades do Sul da Coreia.

2018 foi o ano de maiores avanços desde 2000 e foi assinada a Declaração de Panmunjon para a Paz, Prosperidade e Unificação da Península Coreana no qual os países concordavam em diminuir as tensões e priorizar as conversações de paz. Ao mesmo tempo, o Norte da Coreia começava também suas conversas diplomáticas com os Estados Unidos.

Essas conversações entre Norte, Sul e Estados Unidos levaram a alguns acordos e declarações bem iniciais e com pouca coisa conclusiva, mas foram avanços significativos para uma região que sempre vive o pesadelo de uma guerra nuclear desde 1945.

O Norte concordava em parar os testes nucleares e de mísseis, acabar com o desenvolvimento de novas ogivas nucleares e interromper o desenvolvimento de mísseis, motores e outros dispositivos relacionados, enquanto os EUA e o Sul acabariam com os exercícios militares conjuntos e com o passar do tempo eliminariam as sanções pouco a pouco; nesse mesmo tempo também se levantou a possibilidade de os militares norte-americanos voltarem para os EUA gradativamente.

No decorrer do ano de 2018, o Norte dinamitou o local de testes nucleares – com acompanhamento da mídia estrangeira -, fechou usinas nucleares de produção de ogivas, bem como locais utilizados para o desenvolvimento de motores e outras tecnologias para mísseis; tudo acompanhado pela imprensa internacional. Por mais de um ano, o país sequer realizou exercícios militares em grande escala e não realizou nenhum teste de míssil ou bomba nuclear, cumprindo sua palavra.

Nesse mesmo tempo, os EUA e a Coreia do Sul realizaram dois grandes exercícios militares, os maiores no mundo, simulando uma invasão do Norte, a captura de Pyongyang e da alta liderança do país e Exército, inclusive simulando um ataque nuclear preventivo em determinadas regiões.

Nessa época, o Norte apenas enviou declarações de repúdio, pedindo para os exercícios terminarem e assim retomarem as conversações de paz. Aliás, foi o que o Norte fez posteriormente quando o Presidente Moon Jae In visitou o país, sendo recebido de braços aberto pelo povo e governo do Norte, que tentava reforçar os laços entre os países com tratados e ações de fato e não apenas declarações vagas.

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O presidente sul-coreano Moon Jae In foi recebido na Coreia do Norte como convidado de honra. (Foto: Getty Images/Reprodução)

Na Assembleia das Nações Unidas, o Norte reforçou a sua posição de querer dialogar e procurar um tratado de paz. Inclusive, chegou a ocorrer mais um encontro com as autoridades dos EUA, em Hanói, Vietnã, e depois na própria região de Panmunjon, em Kaesong, na fronteira entre o Sul e Norte.

Nada disso adiantou – nos meses seguintes, os exercícios conjunto EUA-Coreia do Sul continuaram e os Estados Unidos levou uma frota com bombardeiros nucleares para a Península Coreana. Foram novamente advertidos pelo Norte através de declarações diplomáticas.

O Norte continuava cumprindo aquilo que havia dito, mas o Sul e os EUA não. Por esse motivo, a RPDC voltou a testar mísseis e realizar exercícios militares, mas não na fronteira com o Sul: eram manobras periódicas que foram adiadas durante mais de um ano para tentar estabelecer a paz na região.

Ou seja, o Norte mostrou que queria de fato negociar e tirou aquilo que tinha prometido do papel, já o outro lado não. Por isso o país voltou com os testes, legítimos para garantir sua sobrevivência.

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Kim Yo Jong, uma das principais autoridades da Coreia do Norte, chegou a se encontrar com o presidente sul-coreano algumas vezes.

E chegamos até a situação de atualmente. “Desertores” do Norte que vivem no Sul recentemente mandaram balões do Sul para o Norte com conteúdos pornográficos, ameaças de morte aos líderes do país e outras coisas mais. Em meio a uma pandemia mundial em que um vírus (Covid) se propaga de forma rápida e fácil, através inclusive de superfícies. Violação completa dos compromissos assumidos.

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Balões com cartazes e panfletos que insultam a liderança norte-coreana violam os Acordos de Panmunjon. (Foto: News Daily Korea)

A Coreia do Sul foi, no início, um dos principais centros da pandemia e até hoje já teve 12.155 casos confirmados da doença. O vírus se espalha por gotículas e pode sobreviver, como dito anteriormente, em superfícies. De acordo com o site da UFRGS, pode sobreviver por até 72h em plástico, 72h em aço inoxidável e até 5 dias em papel e vidro. Enviar esse tipo de material sem nenhum tipo de higienização e sem controle de quem está enviado é um crime contra a saúde pública mundial.

Depois que esses materiais caíram no Norte, Kim Yo Jong e outros membros do governo notificaram a Coreia do Sul sobre o ocorrido e solicitaram que as autoridades fizessem algo. Com a não tomada de ação por parte das autoridades sul-coreanas, a RPDC tomou medidas de reciprocidade diplomática: encerrou as linhas de conversão e dinamitou um prédio que era usado para conversações na parte Norte da fronteira. Vale deixar claro que o prédio não estava ativo por conta do mal-estar diplomático e também em razão da pandemia. Não havia ninguém no local e nenhuma pessoa foi ferida.

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Imagens mostram a demolição do escritório na parte Norte da Coreia.

 

Quem precisa ser responsabilizado por isso são as autoridades sul-coreanas, que só ficaram com palavras vazias e não agiram prudentemente, inclusive ameaçando que a Covid-19 chegasse ao Norte com os envios dos balões.

As regiões no Norte onde esses balões caíram estão em lockdown e todos os cidadãos estão sendo testados. Esperamos que, devido a essas medidas de contenção, o Norte continue sem casos de Covid-19, pois até o momento a RPDC não tem casos confirmados de coronavírus. E esperemos que continue assim, apesar da imprudente ação dos “desertores” e das autoridades sul-coreanas.

A gravidade ainda maior que o vírus é a quebra de compromisso por parte da Coreia do Sul, que pouco fez para alcançar a paz definitiva na Península e agiu como uma verdadeira colônia dos EUA, não tendo qualquer independência e autodeterminação em suas ações com o governo do Norte.

___________
Gabriel Tanan
Vice-Presidente do CEPS-BR

4 comentários em “A paciência não é eterna: entenda o que está acontecendo na Coreia

  1. Olá camarada, poderia referenciar as fontes das informações? Houve comunicado oficial do governo norte coreano? Vi algumas imagens alegando serem oficiais, porém todo cuidado com as agências de mídia internacionais ainda é pouco. Obrigada.

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